A minha vida

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A minha vida

“Meu nome é Elizandra Cerqueira, tenho 29 anos. Eu nasci em Poções, na Bahia. A minha mãe, a origem dela é do Paraná, meu pai é da Bahia, eles se conheceram aqui em Paraisópolis e foram embora pra Bahia. Meu pai veio morar na construção civil aqui, pra ajudar a família na Bahia, e minha mãe veio porquê um dos patrões dela veio pra São Paulo, ela a vida toda foi doméstica, e aí eles acabaram se encontrando, namorando, e meu pai levou ela pra Bahia, ela passou 9 anos lá, ela teve a primeira filha lá, com parteira, segunda, e daí nasce eu… com 1 ano de vida a gente veio pra São Paulo novamente.

No início a gente sempre morou no mesmo lugar, a gente nunca se mudou, a mais de 30 anos o meu pai mora na mesma viela, na minha infância a gente quase não tinha vizinho, tinha um só, tinha muito mato aqui. A gente não tinha nenhuma rua asfaltada aqui, pra sair era uma dificuldade, só tinha duas escolas na época, então ou as pessoas estudavam no Homero ou no Etelvina, então todo mundo se conhecia, a gente não tinha muita opção de lazer também. Minha casa era de madeira, no início, todo mundo que morava aqui era ‘madeirite’, era barraco.

Hoje viver aqui é uma experiência com lados bons e lados ruins sempre. Antigamente a gente tinha mais liberdade pra andar, né, tinha mais espaço. Hoje Paraisópolis tem um número muito grande de habitante, né, espaço físico mesmo… eu lembro que quando a gente morava na casa de madeira, a gente tinha quintal, várias famílias tinham quintal, hoje é tudo casa… o crescimento é verticalizado, até 7 andares você encontra aqui, hoje essa questão da qualidade de vida ‘tá’ ruim, não tinha tanta tecnologia, avançou muito, a gente tinha mais contato, brincava mais, a gente conseguia sair mais… hoje a gente já ‘tá’ nessa coisa da tecnologia, as pessoas estão mais em casa, falta espaço em Paraisópolis, a mobilidade urbana é bem precária por conta da quantidade de moradores.

São mais de 100 mil habitantes. E isso acaba prejudicando um pouco essa questão da mobilidade, mas hoje a gente tem várias coisas que eu gostaria de ter quando era mais nova, a gente tem uma ETEC, a gente tem CEU, a gente naquela época só tinha uma creche, né, então as vagas eram disputadíssimas, pra ir pra creche era uma luta, então não fui pra creche… hoje tem várias creches, ainda falta, hoje a gente tem 1800 crianças fora da creche, é um direito da criança e um direito da mãe, mas hoje tem mais oportunidades que antes a gente não tinha, o acesso a tecnologia, a educação deu um avanço grande, a saúde deu uma melhorada incrível.

É engraçado que quando a gente começa o trabalho, comecei há uns 13 anos na comunidade, a gente vai tendo sonhos, né? No inicio o meu sonho era melhorar minha escola, oferecer algo a mais pra mim e pros meus amigos, daí quando eu vim pra União meu sonho era de ver Paraisópolis transformado, acho que o básico, que quando a gente veio pra cá a luz não era legalizada, a água, o asfalto, então o básico a gente trouxe pra população, escolas, saúde melhor… era algo que eu sonhava e que eu consegui vivenciar e ajudar a trazer, hoje o meu sonho ‘tá’ mais nessa questão do desenvolvimento, é um sonho inclusive coletivo, não é especificamente meu, é de uma equipe toda que trabalha junto, a gente não vê a necessidade de Paraisópolis crescer, mas sim de desenvolver, fornecer cultura boa pros nossos jovens, perspectiva de vida, é muito sofrido a gente ver hoje o jovem, não só de Paraisópolis, no geral, que não se vê dentro de um teatro, dentro de um cinema, não se enxerga vendo uma faculdade, não se enxerga vendo uma profissão, isso é muito dolorido, então é mudar essa realidade, fazer com que o âmbito familiar se sobressaia, que as mulheres possam constituir famílias mas que a mãe não tenha que perder o filho pro crime nem pras drogas, e que a comunidade possa ter acesso a serviços que hoje não consegue adquirir por conta da dificuldade que é, da falta de acesso, do preconceito das pessoas pela questão econômica e o fato de morar numa favela, torna um peso grande, e as pessoas esquecem que ninguém nasce querendo morar numa favela, é questão de necessidade.”

Tags: Adulto, Em pé, Individual, Meio Corpo, Mulher, PROAC, Rogerio Padula, Rua, São Paulo, São Paulo (Cidade), Sudeste, trabalhador

Informações

Cidade
São Paulo – SP
Data
Abril 2017
Fotógrafo
Rogério Padula
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