Desafios da vida

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Desafios da vida

“A vida na infância era muito difícil, passei fome mesmo. Eu comia o resto da padaria, no outro dia eu tinha que acordar cedo juntar ferro velho pra vender e tomar café de novo. Pra mim ser muito rico era fazer o que alguns amigos faziam: ir no mercado e comprar as coisas. Minha mãe não, era tudo fiado. Uma vida limitada. Hoje com 30 anos eu tenho medo de rato. Tenho medo de rato porquê com 10 anos os ratos também não tinham o que comer e me mordiam na cama. Eles roubaram sabão em pedra da casa da minha mãe que era só o que eu tinha.

Apesar dessa parte triste, eu tive uma parte muito gostosa. Sobretudo quando eu me juntava com meus amigos na rua. Eu era o cara que tomava banho, era o cara que comprava bolacha e dava pra todo mundo pra ninguém me bater. Mas por outro lado eu conseguia ser feliz brincando. Eu aprendi a ser feliz na tristeza. Fui obrigado, não tinha opção.

Eu trouxe muitas coisas da minha adolescência pra hoje, meu apelido mesmo é Ratinho, porque eu corria muito nas brincadeiras. Depois que todo mundo pegou apelido, meu irmão foi chamado de Topanga por causa de um programa de TV. Aí por um momento os meninos começaram a me escutar mais, começaram a aceitar o que eu opinava, por exemplo nas coisas que me machucavam, então eu comecei a ter espaço pra falar.

Ai veio a adolescência, a rebeldia. Comecei a vacilar, querer o básico. Minha mãe trabalhava, sustentava os 8 filhos sozinha. Ela veio pra São Paulo porquê o filho dela foi roubado dos braços dela, então eu entendo que minha mãe tivesse medo de viver com homem. Por causa da decisão dela, de viver sozinha, a gente teve dificuldades, eu não aceitava isso. Comecei a pensar na possibilidade de roubar. Quando chegou na adolescência eu comecei a me influenciar. Isso foi contaminando meu caráter aos poucos. Eu era o cara que roubava bolacha no mercado, com a mentalidade que ‘tava’ acertando pois eu só queria que meus irmãos comessem bolacha. Eu fedia, as meninas não chegavam perto de mim, então eu roubava o perfume do mercado. Isso foi alimentando a destruição, cheguei no ponto de andar com moto roubada e fui preso. Agora, por incrível que pareça, na FEBEM eu tinha tudo. Lá dentro eu tinha o que eu não tinha do lado de fora, eu não tinha minha liberdade, mas tinha alimentação, tinha uma cama, eu dormia sozinho. Mas eu sentia falta do carinho da minha mãe e comecei a enxergar que eu precisava mudar.

Fiquei preso em regime fechado 1 mês, no semiaberto eu ficaria 3 meses. Eu estudava, chegava no horário certo, fazia curso, minhas notas arrebentando, fiz tudo por isso saí com 2 meses. Saí antes do tempo que me deram pelo meu esforço. Foi algo que trouxe isso minha vida: tudo que eu fizesse de certo daria certo também. Me inscrevi em um curso de cabeleireiro, comecei a me envolver com a grafite e ganhar meu dinheiro para ter as coisas. Arrumei um emprego no bar, deram oportunidade pra eu trabalhar. Eu sofri muito por causa da passagem, eu era o ex presidiário, eu tive que provar pra mim mesmo que aquilo não fazia diferença na minha vida. Não foi fácil.

Mas coloquei na minha cabeça que todo mundo tem as coisas porquê trabalha então resolvi trabalhar. Hoje construí muita coisa. Por isso comecei me preocupar com a parte social. Como eu não tive nada na infância eu fazia as festas pra todo mundo. Ninguém sabia da minha história e eu fazia questão de ver uma criança podendo comer. Eu encontrei a felicidade quando eu vi que precisava praticar o bem.”

Tags: Beleza, Corpo Inteiro, Evangélico, Homem, Individual, Praça, PROAC, Rogerio Padula, São Paulo, São Paulo (Cidade), Sentado, trabalhador

Informações

Cidade
São Paulo – SP
Data
Abril 2017
Fotógrafo
Rogério Padula
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