Jornalista do futuro

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Jornalista do futuro

‘Bom, sempre odiei matemática, física e química. Então, na minha cabeça de moleque lá em Porto Alegre (RS), o jornalismo poderia ser uma boa alternativa para nunca mais passar calafrios com essas coisas. Entrei na faculdade e achei tudo muito arrogante e prepotente. Eu era um estudante de jornalismo que odiava jornalistas. Pensei em migrar para a publicidade um tempo, mas resolvi apostar um pouco mais nesse caminho. Já formado, decidi vir para São Paulo. Oficialmente, a minha motivação era fazer o caminho inverso do meu pai – que é técnico químico – e mudou da região do ABC para o Sul em busca de melhores oportunidades. Mas, na real, vim pra cá por causa de mulher.

Eu morava no Sul, mas sempre passava férias em Santo André (SP), cidade onde nasci. Lá, numa dessas idas e vindas, conheci uma menina e começamos a namorar. Meus planos eram me formar, mudar para Sampa, casar com ela e ver no que daria. Mas, uma semana antes da minha formatura, que ela viria para ser a minha acompanhante na festa, um telefonema acabou tudo. Ela terminou. Tinha entrado na faculdade, estava empolgada com as festas, queria ficar solteira. Puto da vida, mas tão maduro quanto nunca eu havia sido antes, me conscientizei que aquele era um momento meu e que ninguém iria atrapalhar. Me formei em julho
de 1996 e rumei para São Paulo, odiando jornalismo e sozinho.

Bati em algumas portas e fiz testes, mas nada deu resultado. Minha cabeça estava em outro lugar. Mas um lance de momento mudou a minha vida para sempre! Liguei para uma amiga de Porto Alegre que estava morando em Campinas. Contei o meu drama e ela me convidou para ficar um final de semana na casa dela. Eu fui e ali conheci outra mulher, aquela que seria a minha namorada e futuro esposa, mãe do meu primeiro filho.

Ela me ajudou a fazer um currículo decente e me levou aos jornais da cidade. Consegui um estágio no Correio Popular e depois uma vaga definitiva no TodoDia, de Americana. Em seguida, voltei para Campinas para trabalhar no Diário do Povo. Quando o Correio Popular comprou o Diário (do Povo), meu “casamento” com a empresa começou.

No Diário fui, finalmente, picado pelo jornalismo. Me apaixonei pela profissão de corpo e alma. Queria morar na Redação. Fiz Polícia, Política, Cidades, Trânsito, Saúde, Loucuras. Me vesti de mulher para entrar em uma balada, catei lixo com miseráveis em um aterro sanitário, me passei por cego para testar a solidariedade das pessoas, tomei Ayahuasca (o chá de Santo Daime) e viajei por horas, cobri enchentes, crimes, jogos de futebol, senti de leve o gostinho de uma Copa do Mundo, conversei com o Toninho do Diabo em um cemitério à noite e acompanhei o Papa Francisco em Aparecida, conheci refugiados e imigrantes latinos, africanos e árabes, acompanhei CPIs em Brasília, vi de perto a atuação do Exército brasileiro no Haiti, esquiei em uma montanha no Canadá, dormi em uma oca ao lado de ratos e facões no Xingu e fumei um baseado na Jamaica, ao lado do túmulo de Bob Marley. Em 2006, ganhei um Prêmio Esso na categoria Interior ao cobrir a Máfia dos Sanguessugas na região. Várias histórias também renderam mais de seis Prêmios Feac de Jornalismo.Foi na Redação do Correio (Popular) que conheci minha atual mulher, jornalista porreta de Política. Com ela, tenho uma filha, a curiosa Alice. Já jornalista?? Humm, será?

Mesmo após de quase 20 anos de profissão ainda busco histórias, que foi o que me apaixonou no jornalismo. Histórias. Mas, nestes momentos difíceis que passamos, com demissões e sucateamento total da profissão, tento me agarrar nessa paixão, em buscar novos olhares. Não me sinto um “trabalhador”, mas um militante do jornalismo. Sei que isso é ingênuo, mas é o que me motiva. Ir atrás de uma nova história todos os dias. Elas, muitas vezes, não surgem do dia para a noite, mas quando acontecem…Meu Deus, é um orgasmo, cara! Sigo sempre atrás de novos orgasmos, mesmo que isso me traga baixos salários, várias formas de assédio moral, muito estresse e várias dores de cabeça e menos cabelo.

Acredito que todo cidadão tem um papel importante, mas nós jornalistas temos a obrigação de trazer a verdade. Mesmo com tanta falcatrua, tanto interesse econômico e político envolvido, me sinto na obrigação de contar o que eu vi na realidade, de forma honesta. Num país de dimensões continentais como o Brasil, o jornalismo regional é fundamental para que a verdade prevaleça. Quero ser os olhos do leitor, ir até onde ele talvez nunca vá pisar. Antes da minha formatura, meu pai me deu uma caneta de presente e disse: “Só escreva verdades com ela”. Acho que isso resume bem o meu mergulho nessa vida de jornalista.’

-Como será o Fábio Gallacci daqui há 20 anos?

‘Putz, o Gallacci daqui a 20 anos? Terei 62…aposentado sentado no sofá vendo Netflix? Professor? Jornalista véio no meio das crianças. Pensar nisso é um desafio pra mim. Não penso muito no futuro, vou levando…de forma bem irresponsável mesmo. Só sei de uma coisa, serei sempre repórter. Vou morrer repórter.’

Tags: Campinas, Erica Dezonne, Homem, Individual, Jornalista, São Paulo, Sudeste

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Informações

Cidade
Campinas -SP
Data
Agosto 2015
Fotógrafo
Erica D. Dezonne
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