Outro tempo

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Outro tempo

“Passei anos fora daqui da minha terra até chegar a uma conclusão, que hoje parece obvia, mas que me fez voltar pra cá: percebi que estava vendendo minha vida, não trabalho. Quando você nasce na cidade tem um ciclo de vida lá, todo mundo ‘tá’ acostumado com aquilo lá. Quando você nasce aqui, você tem um outra noção de tempo, aqui você depende da maré, você depende do vento, da chuva. Tem que observar o meio, se hoje vai chover, não adianta jogar rede que amanhã não vai ter nada. Você tem o tempo da natureza, lá não, lá você perde todo esse contexto. Tem que sair seis horas e seguir uma rotina meio artificial.

Não interessa se está chovendo, ninguém ‘tá’ ligando se você tá doente ou não. Você sai seis horas pro serviço, sai meio dia para almoçar, volta uma e meia, duas horas, volta e trabalha até as seis, chega em casa cansado, tem que fazer janta pra comer e tal. Ai você dorme. Acorda no outro dia e você vê que você não tá vivendo, você tá trabalhando, sabe? Dia após dia… e é tão rotineiro que o tempo passa rápido, sabe? Não tem nada de diferente na sua vida. A única coisa que tem de diferente é quando você sai sábado e domingo, vai pra algum lugar, se tiver dinheiro, né? Se tiver dinheiro para sair, se tiver um carro para viajar, descer pra praia, ir pra algum lugar, senão você fica em casa. Vai um dia no parque ou vai no shopping então.

Quando dei por mim se tinham se passado 10 anos da minha vida! Passaram e você não viveu nada! Só viveu aqueles momentos artificiais. Claro que tiveram aspectos positivos: na cidade conheci e minha esposa e tive uma vivência unica. É a mesma coisa que eu falar pra você como é viver aqui, ah, pescar e tal, você vai achar que é uma beleza, né? O cara vive aqui de frente pro mar, né, nesse paraíso, vai pescar, deixa a rede, volta… mas não é só assim, né? Aqui tem pernilongo, tem cobra, tem mosquito botuca, tem dia que chove, não dá pra fazer nada, tem dias que você joga a rede, o mar vira e você tem que ir lá arriscar a vida pra tirar a rede pra não perder o seu material, tem dia que você vai e joga, tem que ir lá de novo, ficar pescando o dia inteiro, volta cansadaço, chega em casa, tem que limpar o quintal, tem que fazer um bocado de coisa. Então não é assim, não tem só um lado bom. Então se você não viver você não conhece de verdade.”

Tags: Adulto, Caiçara, Corpo Inteiro, Em pé, Homem, Iguape, Individual, PROAC, Professor, São Paulo, Sudeste, Tomás Cajueiro

Informações

Cidade
Iguape – SP
Data
Março 2017
Fotógrafo
Tomás Cajueiro
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