Vida de Santo

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Vida de Santo

“Me chamo Luiz, mais conhecido pelo meu nome de santo, Toloji. Minha caminhada nesse mundo começou quando eu tinha um amigo, aqui em Campinas, que frequentava a Umbanda. Antes eu era católico, minha família muito católica, mas tinha algumas coisas que não dava pra gente conceber dentro do catolicismo como, por exemplo, o fato de Maria ser virgem, essas coisas. Comecei a observar que as culturas Afro falavam a mesma linguagem, haviam diferenças entre elas, mas não muitas. Enquanto na Umbanda, cada um tinha a sua verdade. Frequentando, notei que cada pessoa da Umbanda falava uma coisa diferente. Ninguém tinha o mesmo ponto de vista. Isso me incomodava, porque um era mais católico, outro magia oriental, magia ocidental. Cada um era uma coisa.

Minha mãe todos os anos ia pra Salvador, de onde somos, visitar os pais dela. Numa dessas idas, eu pedi pra ela ver alguém pra poder fazer minha obrigação. Em Salvador, eu tinha certeza que esse tipo de coisa era mais fácil de encontrar, de ter confiança pra fazer a iniciação. Então minha mãe contatou uma pessoa, que me carregou no colo quando criança, e a sobrinha dela era mãe de santo. Fui lá primeiro, acertei os valores pra poder fazer a obrigação nas férias do serviço e fiz minha iniciação.

Meus pais de santo moravam em Salvador, numa época que não tinha telefone, não tinha nada, eu mandava uma carta quando tinha problemas e 3 meses depois eu recebia a resposta. Às vezes falava de tudo, menos do que eu tinha perguntado. Nas férias, eu fazia minhas obrigações, a de 7 anos eu já fiz aqui em Campinas mesmo. Eu fiz santo em 72, em 76 eu ajudava as pessoas com caboclo, com coisas ligadas ao santo e então, eu fundei uma casa no Jardim São Pedro, foi a primeira casa de Campinas.

O pioneirismo acho que foi o principal desafio, porque o candomblé não se faz sozinho. Quando você precisava de alguém, você não tinha quem te ajudar, minha mãe de santo morava em Salvador, quando vinha pra cá, ficava muito caro. O Candomblé é muito refinado, cheio de jeitos e segredos que só os mais velhos conhecem. Quando a gente precisava, tinha que procurar quem tinha conhecimento, pra poder comprar o conhecimento. Hoje mudou muito, você tem acesso a internet e a muito conhecimento. Apesar de ser um perigo, tem muita coisa errada ali, quem não tem conhecimento vai pegar as coisas que não sabe o que vai fazer, mesma coisa que você dar uma peça pro cara montar o carro, sem ele saber onde vai colocar a peça.

Uma coisa que não mudou foi o preconceito. Mas sabe, a ignorância vai ter em toda parte, a pior coisa do mundo é quando você fala em religião ofendendo alguém. Cada um tem seu modo de ver o Deus que ele imagina existir, o sagrado dele vai ter sempre prioridade ao sagrado dos outros. Preconceito é uma coisa errada, mas como você vai fazer ele ter consciência? Tem que ter o bom senso, a pessoa não faz ideia que Deus é ele também, que tudo que ele vê no universo é Deus, Deus é tudo. Não é um ser humano. A gente não tem nem consciência do que seja Deus, é tão vasto, tão vasto que não dá nem pra imaginar… até mesmo os mais refinados cientistas não tem noção do total.”

Tags: Campinas, Candomblé, Em pé, Homem, Idoso, Meio Corpo, PROAC, Religioso, São Paulo, Sudeste, Tomás Cajueiro

Informações

Cidade
Campinas – SP
Data
Junho 2017
Fotógrafo
Tomás Cajueiro
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