Vida no tráfico

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Vida no tráfico

“Sou nascido e criado aqui mesmo na comunidade desde quando aqui era só lama. Minha mãe não deixava nem eu sair do portão de casa com medo porquê era muito mato aqui. Tenho cicatriz de andar na favela aqui mesmo. ‘Nóis’ é maloqueiro mas eu tenho o estudo completo, eu nunca repeti de ano, minha mãe me levava e buscava na escola, tanto que hoje em dia ela é funcionária da escola terceirizada, foi estudando e fazendo concursos, hoje em dia é efetiva da prefeitura.

Já vi de tudo na minha vida! Já vi morte, vi briga e agora tem uns 3 meses só que ‘tô’ no movimento, mas de teimosia mesmo, porquê eu nem preciso disso, minha mãe me dá de tudo. Estou aqui pra ter um pouco de dinheiro a mais pra sair, balada, festa. Porquê se eu chegar em casa tem de tudo, mingau, fruta. Se eu chegar agora e pedir dinheiro pra minha mãe, ela vai e me dar. Mas prefiro vir aqui e ganhar o meu dinheiro.

A pior experiência da minha vida foi ser preso. Meu irmão chapou, meu pai virou cachaceiro, meu pai morreu faz 1 ano e 8 meses, completamente abandonado. Fui preso porque fiquei procurado num 12, ai fui preso em flagrante em mais um 12. Fiquei 7 anos ao todo, o que mais pesava era minha filha pequena, saí ela tinha 9 anos, fui preso ela tinha só 2! Hoje eu busco viver ela ao máximo, levo e busco ela todo dia na escola, devo nada pra ninguém. Mas é ruim porque fico meio inseguro sabe, sei as coisas que já vi e vivi por isso não consigo desligar nunca. Fico sempre atento. Isso é ruim. Muito ruim. Sua mãe ou sua filha doente precisando ir no médico e você não ter como levar porque tem medo que alguém te acha, ‘tá’ namorando com a mulher, ouve um barulho no quintal e já fica preocupado. Isso é ruim cara, muito ruim.”

Tags: Busto, Em pé, Guarujá, Homem, Individual, Jardiel Carvalho, PROAC, Rua, São Paulo, Sudeste

Informações

Cidade
Guarujá – SP
Data
Abril 2017
Fotógrafo
Jardiel Carvalho
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